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Orgulhosamente Português
Sento-me à mesa do restaurante “De Lisbon” e vejo que anunciam em bom inglês “traditional malaysian portuguese food”. Não procuro comida, procuro a língua, esse modo diferente de falar português, quase perdido nos tempos e nas gerações… quero contrariar as evidências e encontrar a língua dos descendentes daqueles que há 500 anos repousaram no Estreito de Malaca.
Peço uma cerveja. O Sr. Pedro da Silva cumprimenta-me, traz-me a cerveja e alguns dedos de conversa. Fala Português, ou o que resta dele! Alguns amigos, que já tinham andado por estes lados, avisaram-me que Malaca era uma desilusão, que não havia ninguém a falar português. Ou eles foram a uma Malaca distinta da minha ou eu tive muita sorte. Fico-me pela primeira opção, já que, segundo o Sr. Pedro, a comunidade de falantes de português em Malaca ainda é considerável.
Conferencia-me que o seu grande desejo era poder conhecer Portugal. Queria sentir o cheiro do manjerico e dos santos populares, das vindimas e das romarias, e sentir a maresia numa lufada de ar fresco.
À volta da mesa relembra os tempos agitados que antecedem a vinda do navio Navio Escola Sagres à Malásia. Com ele chegam as sardinhas, o bacalhau, o “fumo” (tabaco), mas acima de tudo a língua, essa que o Sr. Pedro nunca esqueceu…
Queria uma escola para os netos aprenderem a língua de Camões (tão maltratada por quem tem o dever de zelar por ela), queria missa ao domingo em português, queria que se lembrassem que aqui, a 12 mil km de Portugal, entre as cores garridas do oriente, ainda há gente que do Estreito de Malaca grita pró mundo: EU SOU PORTUGUÉS!
Add comment 2009/06/30
“Flor de La Mar” – Malaca
Tão rápido uma história vira mito, como o mito lenda.
Não é uma lenda que hoje vos vou contar. Esse galeão que cruzou o Bojador, que não se amedrontou com Nepturno e o seu tridente, que não sucumbir às torrentes da Boa Esperança, que descansou nos mares calmos do Índico, descansa eternamente no fundo dos mares do estreito de Malaca.
A ganância desmesurada levou Afonso de Albuquerque a “atulhar”, o mais nobre galeão da sua armada, com os mais ricos tesouros pilhados aos Sultões da Malásia. Os fortes/ ricos, desde tempos imemoriais, sempre fizeram valer a sua força para pilhar aqueles que menos tinham!
Malaca era então o maior centro comercial do oriente e Afonso de Albuquerque queria presentear a corte do Rei D. Manuel I com os mais finíssimos tesouros. Flor de la Mar saiu de Malaca em direcção a Goa, mas não consegui atravessar o estreito… sucumbiu às correntes, desprendeu-se da vida e jaz morto nos fundos dos mares, ainda hoje, acredita-se, adornado com as mais belas pedras preciosas…
Hoje, em Malaca, esta réplica aloja o Museu Marítimo da cidade.
Add comment 2009/06/22
Malaca – “Welcome Home!”
Olho para ele de soslaio evitando a sua mirada, esquivo-me das várias tentativas que faz para me vender uma “pulseira da sorte”.
De repente, ambos os olhares se cruzam. Tinha uns olhos negros, dentes luzidios, lábios carnudos e uma tez mais do que gasta, queimada pelo sol. Pergunta-me, num inglês quase imperceptível, de onde eu era. Respondo-lhe que era português. Esboçou um sorriso, ergueu o olhar e disse: Welcome Home, my friend!
Aquelas palavras ecoavam no meu pensamento enquanto percorria o que restava da “Famosa”. Observo as dezenas de chineses que de plantão tiram fotos diante da Porta de Santiago. Detenho-me lendo a sinalética, que em inglês, explica que a Porta de Santiago, foi uma das quatro portas de entrada para a fortaleza portuguesa “a Famosa”.
A armada portuguesa, liderada por Afonso de Albuquerque, conquista Malaca em 1511 e de imediato constrói o forte de que, hoje, apenas resta a Porta de Santiago.
Reza a história que os portugueses usaram as pedras sagradas dos mausoléus e mesquitas muçulmanas, em conjunto com o trabalho escravo, para construir um forte, cujas paredes laterais atingiam os três metros de altura.
Albuquerque acreditava que Malaca seria a o porto de ligação entre o comércio de especiarias chinesas e a Europa, por isso, apressou-se a estabelecer defesas em torno de Malaca.
O forte resistiu durante mais de um Século, até ter sucumbido, em 1641, ao poderio da Companhia Holandesa das Índias Orientais.
Conta-se que no Séc. XIX, Sir Raffles, o fundador de Singapura, por amor à História, impede a destruição total da “Famosa”, deixando como marco, a “Porta de Santiago”.
No alto da penha ergue-se a Igreja de S. Paulo. Deparo-me com um grupo de músicos de rua que alegram os turistas naquela que outrora acolheu, ainda que temporariamente, os restos mortais do Missionário do Oriente: São Francisco Xavier.
Passo algum tempo a ler às várias inscrições gravadas singelamente nas várias pedras que ladeiam a Igreja. Lembram homens honrados, prestam homenagem a senhores, lembram vitórias e tempos de glória! Apresso o passo, cai a tarde e ainda quero beber uma cerveja fresca, olhando o mar rodeado daqueles que orgulhosamente dizem: sou português!!!!
1 comment 2009/06/01














