Posts filed under 'Asia'
Tôi ân chau – Sou Vegetariano – I am vegetarian
Perguntam-me se sou budista. Não.
Então porque és vegetariano? Não gostas de carne, de peixe?
Tento explicar algumas das razões. O sofrimento Animal? Os meus companheiros vivem todos os dias com o sofrimento humanos. A degradação ambiental? É apenas uma forma de sobrevivência.
Para os meus amigos, e num país onde se como tudo, e quando digo tudo, é mesmo tudo o que salta, voa, nada, rasteja, etc, só a religião é razão suficientemente forte para se ser vegetariano.
Na verdade, ser vegetariano é um acto de coragem de que me orgulho, uma opção de vida necessária e coerente com a luta por um mundo ecologicamente sustentável.
Uma taça de arroz, longo, solto, brilhante de tons perlados e uns vegetais estaladiços, frescos e viçosos, que mais posso almejar?
Add comment 2009/10/18
Hoi An – Partir quando me apetece ficar
Em países como este, onde 50% da população vive do arroz, não lugar para relógios, internet ou horários. Há apenas esse astro maior, fonte de vida e, hoje, muito calor!
A vida começa cedo! À falta do famoso galo das saudosas terras da beira, acordo com o barulho dos transeuntes, melhor, mais motos que pessoas. São 6 da manhã, ainda cambaleante, arrasto o corpo cansado até ao duche matinal. Maravilha!
Parto hoje! E como nos últimos dias, para Norte – Hue!
Quem me dera ser um desses camponeses que avisto ao longe
de chapéu cónico,
tez gasta pelo sol
e mãos calejadas de tanto arroz fazer viver.
Quem me dera não ter horas,
Lugar
Sentido ou
Rumo!
Quem me dera poder vaguear num corrupio sem nexo
Por essas praias de arrozais verdejantes,
De água
E reflexos…
Quem me dera não ter de partir quando me apetece ficar!
Quem me dera não ser mais um de mochila, perdido,
Mas sem as mãos calejadas,
Nem a pele gasta pelo sol.
Conheço gente.
Em tantos quilómetros conhece-se muita gente. Muitos estão pelas festas na areia, outros pelas praias, outros porque sim… todos querem chegar a algum lado. Eu, NÃO! A mim pouco me importa o meu destino, os lugares onde chegarei. Estou aqui pelo CAMINHO. O mais importante é o pó que levanto e as pegadas que deixo…
Add comment 2009/10/14
Nha Trang – Vietnam (23.07.2009)
Mergulho nas águas, hoje, calmas do mar do Sul da China, na Costa Central do Vietname. O mar é imenso e azul-turquesa, a areia luzidia estende-se até se perder no horizonte. É assim em Nha Trag.
É cedo demais para turistas. Apenas os locais e alguns coqueiros já se despertaram e se banham nestas águas. Enquanto percorro os 6 km de areal, relembro a noite anterior.
Acordo com os solavancos do autocarro e embalado por uma luz ténue, mas com a tépida sensação de ter dormido bem. Os olhos ainda semi-cerrados esforçam-se por focar o horizonte. A luz no Vietname é magnífica, sou surpreendido por um dos “nascer-do-sol” mais colorido que presenciei até hoje. Uma autêntica melodia de cores vivas, vermelhos, amarelos, azuis…
Não posso comprar mais livros, guloseimas e falsos “lonely planet”. A minha mochila começa a pesar, as costas ressentem-se e tenho de recusar dezenas de ofertas, ao longo do areal.
Antes de embarcar novamente nas, já normais, curvas e contra-curvas nessa estrada por montanhas que me levará até Hoi An, sento-me num pequeno restaurante local. Delicio-me com uns nem rau, uma espécie de “spring rolls”, mas mais pequenos e mais estaladiços que os chineses. É relativamente fácil encontrá-los só de vegetais, com uma película super-fina de papel de arroz.
São 6 da tarde, embarco. Mais 12 horas de autocarro!
1 comment 2009/07/23
Tonlé Sap (The world’s biggest fish bowl) – Cambodia
O autocarro percorre lentamente, por estradas acidentadas, as margens do lago Tonlé Sap. Esperam-nos 6 horas de solavancos até à capital do Cambodja – Phnom Phen! A cidade dourada desvanece-se. A paisagem é verde, arrozais, coqueiros e cabanas. Dezenas de aldeias de pescadores que vivem do que o lago lhes dá – Peixe.
Tonlé Sap é uma autêntica maravilha da natureza. O maior lago de água doce da Ásia é património natural protegido pela UNESCO, desde 1997. Duas razões tornam este lago tão especial: primeiro, a direcção das correntes muda naturalmente duas vezes por ano; e segundo, o lado expande-se exponencialmente durante a época das chuvas. Encontra-se ligado ao Mekong em Pnhom Phen por um canal natural de cerca de 100km. Na época das chuvas quando as águas do Mekong sobem, estas sobem também o canal e enchem o lago, que se expande dos normais 2 metros de profundidade até aos 10 metros. Na época seca, quando o caudal do Mekong é baixo, a corrente inverte a direcção e o lago drena as suas águas, de volta ao Mekong.
Este processo leva ao lago, durante a época das chuvas, a vida, os sedimentos e os nutrientes necessários para fazer do Tonlé Sap a maior reserva de peixe de água doce do mundo, dando trabalho a cerca de 3 milhões de pessoas e fornecendo ao Cambodja 60% da proteína consumida anualmente no país.
Chego a Phnom Phen ainda cedo. Procuro um sítio para ficar umas noites. Segundo os locais, há dois sítios com hotéis e “guesthouses” na cidade: à beira-rio (por sinal, a zona mais cara) e à beira-lago (“backpackers area”). Decido-me pelo lago… e não me viria a arrepender!
Numa espécie de alpendre que entra lago adentro, fixo as estacas espetadas bem fundo no lodo, sustentando as numerosas casas de madeira que ladeiam o lago Boeung Kak. Ao longe, crianças banham-se nestas águas acastanhadas, uma mistura de lodo e vida. Pescadores erguem alto as redes finas que depois, com toda a elegância, descem água abaixo na busca incessante de peixe.
As poucas horas dormidas nos últimos dias, o cansaço da viagem em solavancos intermináveis e a rigidez do corpo pedem algo…
Delicio-me com o mel doce de alguns mangosteen tentando adivinhar o número de gomos.
Sinto a água a correr por baixo da cama, a uns 50 cm. Olho o tecto de relance e no escuro posso distinguir as frestas das placas de zinco que vão rangendo ao sabor da brisa que se levantou. O chão é de madeira, uma madeira pobre e velha já com alguns buracos por onde entra o cheiro do Mekong. Estou a flutuar sobre o lago, uma maravilhosa sensação.
4 comments 2009/07/20
Amanhece em Angkor Wat
São 4:30 da manhã. Ainda é escuro! Abro lentamente as cortinas do quarto e verifico as condições atmosféricas. Está um amanhecer límpido e cristalino, aqui e além salpicado com umas quantas nuvens. Perfeito para assistir ao nascer-do-sol sobre Angkor Wat!
À entrada do local onde estou alojado, eu, o Pedro, meu companheiro de viagem pelo Cambodja e Shah, um viajante inglês, negociamos o preço do tuk-tuk, alertando o motorista para o facto de o sol estar quase a nascer, queremos o seu veículo a toda a velocidade. Não se faz de rogado e em 15 minutos percorremos os quilómetros que nos separam de Angkor Wat.
Dezenas de pessoas tiveram a mesma ideia. Ouvem-se estalidos, alguns flashs e o sol irrompe sobre o templo. Angkor Wat faz jus ao nome, transforma-se numa cidade dourada… Os três pináculos do templo parece que tocam o infinito, as palmeiras que rodeiam o cenário e as nuvens que o adornam fazem-me levitar! Tomo parte neste bailado de tons, deixo-me levar… fico ali sentado. Apenas “sinto”, já não olho!
Sentados, em silêncio, no tuk-tuk, regressamos a Siem Reap. É hora do pequeno-almoço.
Add comment 2009/07/18
O império esquecido dos Khmer – Angkor (Cambodja)
17 de Julho
Visto de cima, o Cambodja tem tons prateados. O país está completamente alagado, estamos no auge da época das Chuvas. Com as chuvas vem também o calor, o arroz e a abundância. O Cambodja transforma-se num celeiro!
A noite passada no aeroporto de KL fez das suas, deixou-nos sinais profundos no rosto, as costas curvas e o corpo dormente. Mas o espírito, esse, continua desperto, sedento de aventura, desejoso por desbravar caminho por esse quase esquecido império Khmer.
Os braços do Mekong estão por todo lado, mas aqui reina o lago Tonlé Sap “the worl’s biggest fish bowl”.
No aeroporto de Siem Reap, a cidade que serve de campo-base à exploração de Angkor, trata-se dos vistos, tem-se a primeira impressão do Cambodja e troca-se dinheiro! Se tiveres dólares estás safo, o riel cambojano ocupa um plano secundário!
Como em quase toda a Ásia, motorista de tuk-tuk que se preze ganha à comissão, isto é, leva os passageiros a determinado hotel e cobra… No entanto, como viríamos a verificar, este estratagema, que mais não é do que pôr em prática os mais básicos instintos de sobrevivência, estende-se por toda a parte, os seus tentáculos são gigantescos. Taréfas básicas como ir ao restaurante, comprar um bilhete de autocarro ou até fazer um visto, estão sob a alçada destas artimanhas, num país em que conseguir fazer dois ou três dólares significa assegurar o salário diário!
Os próximos dias estão reservados à exploração dessa mega cidade que foi Angkor. Do tamanho da cidade de Londres, estende-se por entre as entranhas da selva cambojana, convivendo com locais, macacos, elefantes e outras espécies raras. Construída pelo império Khmer há cerca de 1000 anos e apelidada como a primeira grande metrópole, Angkor foi abandonada subitamente no séc. XV, perdida na selva, continua a suscitar mistérios, especulações e a acalentar os espíritos irrequietos dos arqueólogos.
Angkor, em Khmer, significa “cidade”. Mas será justo reduzir a imponência destes templos, erguidos pela força humana, forjados a suor e lágrimas, a uma mera e vulgar palavra “cidade”. Não! Angkor é mais do que isso, é o símbolo de um povo, a identidade de uma nação, o orgulho de um dos países mais pobres do mundo, a beleza de algo grande que até na bandeira, azul e vermelha do Cambodja, figura!
Benedetto Croce, esse grande filósofo italiano, disse um dia que “não há poesia sem um complexo de imagens, e um sentimento que o anima”… Angkor é assim! Não é “palavra”! É um sentimento!

Um dos templos mais impressionantes, Ta Prohm! Escondido no interior da selva, foi inspiração para Tomb Raider!
Regresso a Siem Riep e reparo como foi longo o dia! Desconcertante, de tal forma que não sei qual dos sentimentos me domina por dentro. Se a pobreza e o abandono a que grande parte das crianças estão deitadas, se a magnificência de templos que pareciam erguer-se da terra, não por força humana, mas por qualquer acto divino.
Releio lentamente a carta que Sary, uma das meninas que vende postais e outras coisas tais à entrada de Angkor Wat, me escreveu… penso no seu sorrido, imagino o seu futuro.
Adormeço, mais pelo cansaço que pela tranquilidade de espírito!
Add comment 2009/07/17
Orgulhosamente Português
Sento-me à mesa do restaurante “De Lisbon” e vejo que anunciam em bom inglês “traditional malaysian portuguese food”. Não procuro comida, procuro a língua, esse modo diferente de falar português, quase perdido nos tempos e nas gerações… quero contrariar as evidências e encontrar a língua dos descendentes daqueles que há 500 anos repousaram no Estreito de Malaca.
Peço uma cerveja. O Sr. Pedro da Silva cumprimenta-me, traz-me a cerveja e alguns dedos de conversa. Fala Português, ou o que resta dele! Alguns amigos, que já tinham andado por estes lados, avisaram-me que Malaca era uma desilusão, que não havia ninguém a falar português. Ou eles foram a uma Malaca distinta da minha ou eu tive muita sorte. Fico-me pela primeira opção, já que, segundo o Sr. Pedro, a comunidade de falantes de português em Malaca ainda é considerável.
Conferencia-me que o seu grande desejo era poder conhecer Portugal. Queria sentir o cheiro do manjerico e dos santos populares, das vindimas e das romarias, e sentir a maresia numa lufada de ar fresco.
À volta da mesa relembra os tempos agitados que antecedem a vinda do navio Navio Escola Sagres à Malásia. Com ele chegam as sardinhas, o bacalhau, o “fumo” (tabaco), mas acima de tudo a língua, essa que o Sr. Pedro nunca esqueceu…
Queria uma escola para os netos aprenderem a língua de Camões (tão maltratada por quem tem o dever de zelar por ela), queria missa ao domingo em português, queria que se lembrassem que aqui, a 12 mil km de Portugal, entre as cores garridas do oriente, ainda há gente que do Estreito de Malaca grita pró mundo: EU SOU PORTUGUÉS!
Add comment 2009/06/30
“Flor de La Mar” – Malaca
Tão rápido uma história vira mito, como o mito lenda.
Não é uma lenda que hoje vos vou contar. Esse galeão que cruzou o Bojador, que não se amedrontou com Nepturno e o seu tridente, que não sucumbir às torrentes da Boa Esperança, que descansou nos mares calmos do Índico, descansa eternamente no fundo dos mares do estreito de Malaca.
A ganância desmesurada levou Afonso de Albuquerque a “atulhar”, o mais nobre galeão da sua armada, com os mais ricos tesouros pilhados aos Sultões da Malásia. Os fortes/ ricos, desde tempos imemoriais, sempre fizeram valer a sua força para pilhar aqueles que menos tinham!
Malaca era então o maior centro comercial do oriente e Afonso de Albuquerque queria presentear a corte do Rei D. Manuel I com os mais finíssimos tesouros. Flor de la Mar saiu de Malaca em direcção a Goa, mas não consegui atravessar o estreito… sucumbiu às correntes, desprendeu-se da vida e jaz morto nos fundos dos mares, ainda hoje, acredita-se, adornado com as mais belas pedras preciosas…
Hoje, em Malaca, esta réplica aloja o Museu Marítimo da cidade.
Add comment 2009/06/22
Malaca – “Welcome Home!”
Olho para ele de soslaio evitando a sua mirada, esquivo-me das várias tentativas que faz para me vender uma “pulseira da sorte”.
De repente, ambos os olhares se cruzam. Tinha uns olhos negros, dentes luzidios, lábios carnudos e uma tez mais do que gasta, queimada pelo sol. Pergunta-me, num inglês quase imperceptível, de onde eu era. Respondo-lhe que era português. Esboçou um sorriso, ergueu o olhar e disse: Welcome Home, my friend!
Aquelas palavras ecoavam no meu pensamento enquanto percorria o que restava da “Famosa”. Observo as dezenas de chineses que de plantão tiram fotos diante da Porta de Santiago. Detenho-me lendo a sinalética, que em inglês, explica que a Porta de Santiago, foi uma das quatro portas de entrada para a fortaleza portuguesa “a Famosa”.
A armada portuguesa, liderada por Afonso de Albuquerque, conquista Malaca em 1511 e de imediato constrói o forte de que, hoje, apenas resta a Porta de Santiago.
Reza a história que os portugueses usaram as pedras sagradas dos mausoléus e mesquitas muçulmanas, em conjunto com o trabalho escravo, para construir um forte, cujas paredes laterais atingiam os três metros de altura.
Albuquerque acreditava que Malaca seria a o porto de ligação entre o comércio de especiarias chinesas e a Europa, por isso, apressou-se a estabelecer defesas em torno de Malaca.
O forte resistiu durante mais de um Século, até ter sucumbido, em 1641, ao poderio da Companhia Holandesa das Índias Orientais.
Conta-se que no Séc. XIX, Sir Raffles, o fundador de Singapura, por amor à História, impede a destruição total da “Famosa”, deixando como marco, a “Porta de Santiago”.
No alto da penha ergue-se a Igreja de S. Paulo. Deparo-me com um grupo de músicos de rua que alegram os turistas naquela que outrora acolheu, ainda que temporariamente, os restos mortais do Missionário do Oriente: São Francisco Xavier.
Passo algum tempo a ler às várias inscrições gravadas singelamente nas várias pedras que ladeiam a Igreja. Lembram homens honrados, prestam homenagem a senhores, lembram vitórias e tempos de glória! Apresso o passo, cai a tarde e ainda quero beber uma cerveja fresca, olhando o mar rodeado daqueles que orgulhosamente dizem: sou português!!!!
1 comment 2009/06/01
Shanghai – ‘Whore of the Orient, Paris of the East’
A pontualidade chinesa pregou-me uma partida: o ferry para Shenzhen está atrasado. Os ânimos exaltam-se entre os chineses, a situação não se resolve e o relógio não pára. Sou surpreendido por um “tic-tac” interior, em tudo semelhante, até em timbre, ao que saía das entranhas do crocodilo. Penso em J. M. Barrie, imaginando o Peter Pan voando em um qualquer parque londrino, transformado em “terra do nunca”.
A minha aproximação a Xangai dá-se durante a noite… Os arranha-céus irrompem em direcção ao infinito, até onde a vista já não alcança, os bailados de luzes que brilham na penumbra cor-de-leite lembram os passos sincronizados de uma peça da Broadway. É madrugada e a agitação ainda toma conta da cidade. A capital financeira da China, emprenhada de 12 milhões de chineses e 5 milhões de estrangeiros, nunca dorme e mal respira!
Como grande parte da história chinesa, também Xangai se encontra umbilicalmente unida ao ópio, não porque os seus habitantes sintam um desejo descontrolado por se entregarem aos prazeres dessa massa gelatinosa que a papoila sabiamente produz, mas porque, como consequência da derrota da China frente ao Reino Unido, na Guerra do Ópio, aquela foi obrigada a abrir o porto de Xangai ao comércio externo. Permitiu-se que o comércio florescesse, assim como a eterna e muito amada “puta do oriente”.
Deambulo pela cidade quase sem rumo, identifico ao longe alguns dos edifícios mais famosos… quase todos entregues ao capitalismo canibal que mina por dentro a china moderna. Passeios entre gigantes de betão e a par com riquexós, barraquinhas de tudo-e-mais-alguma-coisa, sinto o palpitar do coração chinês e dou comigo debaixo de uma chuva miudinha e de um frio que me tolhe os movimentos e me impede as palavras.
Subo a mais de 10 m/s, no elevador mais rápido do mundo… tenho medo de parar só no céu e não serem muito agradáveis as surpresas que o todo-poderoso preparou para mim. Também na Jinmao tower o engenho chinês para o negócio salta à vista. Um bilhete de entrada, com o respectivo desconto que o International Student Identity Card proporciona, dá direito a uma pérola… verdadeira! Claro que, enquanto a escolhia, duas simpáticas meninas tentam a todo o custo impingir-me um colar, que de tão clássico que era, já roçava as teias e o mofo. Passo alguns minutos a tirar fotos, aprecio o vai-e-vem de barcos que cruzam o rio, estou quase no céu, mas o pensamento teima em não deixar terra firme! E por aí andará nos próximos dias!
Troco uns quantos renmimbis por um prato de fried noodles e uma cerveja bem gelada… retempero forças de uns dias extenuantes. Ainda sinto os meus passos percorrendo jardins, mercados e praças… ainda sinto o cheiro da agitação própria de cidades que vivem como Shanghai, como se não houvesse amanha para uns e um futuro promissor para outros. Ainda sinto o fervilhar das pessoas, acotovelando-se, bradando… ainda sinto o meu olhar incrédulo tentando decifrar a meia dúzia de caracteres no meu bilhete de comboio…
Ainda sinto um arrepio quando miro de soslaio o rosto da China! passará?
Add comment 2009/05/20
Hoje o meu trilho leva-me a YangShuo (China)
Sinto um cheiro diferente percorrendo o autocarro onde me encontro. Não é de todo estranho! Reminiscências fugazes passeiam veloz à minha volta.
Recordo tempos de outrora… Lembro o Volvo antigo, gigante, de um vermelho pálido, que rasgou incansável essas estradas de alcatrão gasto. Portugal de lés-a-lés. Quando a sorte do calendário assim permitia, folgava às aulas, prometia ao meu pai mais empenho nas lições, a troco de me deixar embarcar nessas aventuras nocturnas.
O cheiro da liteira do velho Volvo, veio-me agora à memória! Onde estarás tu depois desse destino trágico?
Rumo agora ao interior da China, numa mais que improvável viagem de 14 horas de autocarro! Deitado numa cama quase a tocar o tecto, o velho “bus” dá início à sua marcha, lenta, aos solavancos, mas consistente…
Rápidas paragens em “amontoados” de urina e outras coisas mais, disfarçados de casas-de-banho, são o suficiente para perder a vontade de sair do autocarro nas paragens seguintes!
As montanhas pontiagudas, bem características da paisagem das margens do rio Li, aparecem sorrateiras envoltas num manto de névoa esbranquiçada… encantador. Um belo amanhecer!
Gulin merece uma paragem rápida, o suficiente para encontrar um guia e alguém que venda bilhetes de barco até Yangshuo, o verdadeiro destino. Se geneticamente os portugueses estão predispostos para o comummente chamado “desenrascanso”, viver na China e viajar pela Ásia, aguça o engenho e faz despertar um outro sentido: a intuição! Raramente falha.
Recosto-me ao bambu que forra as cadeiras da jangada, descendo o rio. Sinto o vento fresco na cara e a água refrescante que me dá até ao tornozelo! À minha volta, apenas montes (ok, e o som insuportável do motor improvisado da jangada). Invade-me uma letargia agradável, precisava de abandonar a confusão e a selva de betão!
YangShuo, é por estes dias o paraíso para turistas, “climers” e viajantes… vive-se uma atmosfera agradável.
Peço ao timoneiro da minha barca que me deixasse manejar a estaca de bambu, que ele, com tanta agilidade, maneja. Como quase todos por aqui, também ele é um agricultor dedicado aos campos de arroz e, aos fins-de-semana, transforma-se em comandante de umas quantas jardas de bambu.
Depois de umas dezenas de metros no comando da barcaça, sinto que tenho mais sucesso de volta da Canon.
A silhueta de centenas de jangadas empilhadas e as cores em tons de vermelho dos coletes salva-vidas tomam forma no horizonte. Um burburinho faz agitar as águas em torno da árdua tarefa de voltar a carregar as jangadas nos tractores, fazer umas dezenas de quilómetros para montante e começar a contar a história de novo… assim são os dias no rio Li, em pleno coração da China!
3 comments 2009/05/13
Floriram por engano as rosas bravas – Camilo Pessanha
Camilo Pessanha (1867 – 1926) escreveu terem “floriram por engano rosas bravas” num dia de inverno! Esse Camilo, arauto da poesia portuguesa, amante de ópio e juiz de leis, jaz, descansando eternamente, no cemitério de São Miguel Arcanjo em Macau.
Representante máximo do simbolismo poético, o autor de Clepsidra, viveu em Macau durante mais de 30 anos, onde desempenhou a função de Juiz, interpretou os sinais do tempo e deixou um dos mais maravilhosos legados poéticos que Portugal poderia almejar.
Fernando Pessoa dirige-se a Camilo como aquele que me “ensinou a sentir veladamente; descobriu-se a verdade de que para ser poeta não é mister trazer o coração nas mãos, senão que basta trazer nelas a sombra dele. (…) Estas palavras que são nada bastam para apresentar a obra do meu mestre C. P. O mais que é tudo, é Camilo Pessanha.”
Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las…
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!…
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos…
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze — quanta flor! — do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
Camilo Pessanha

Cemitério de S. Miguel Arcanjo, em Macau. Local onde se encontra sepultado o corpo de Camilo Pessanha.
2 comments 2009/05/10
Hoje o meu trilho leva-me a JACARTA (Indonésia)
Nunca estive tão perto da linha do equador e hoje vou transpô-la. Sinto uma excitação anormal por atravessar esta linha imaginária que separa dois mundos, o que produz e o que consome. O Norte e o Sul.
Costumava, em pequeno, palmilhar as serras empunhando apenas o mapa, sem bússola nem caminho. Olhos fixos no céu, procurando a Ursa Maior, cuja distância entre as estrelas da base, multiplicada por 7, me levava à estrela-que-a-todos-guia.
Pergunto-me se conseguirei vislumbrar o norte, aqui, já do outro lado, no sul. E a estrela que nunca se move? Dizem que no sul, a estela-que-a-todos-guia, deixa de guiar a todos, pois sua luz não passa o equador e, para baixo, o Cruzeiro-do-Sul é Rei.
Segundo lendas antigas, os navios eram brutalmente derretidos pelo sol quando se aproximavam do equador, o mar dava lugar ao abismo, engolindo barcos e marinheiros. Leithold, um dos grandes marinheiros da Prússia, descreve assim a sua passagem pela Linha: “reinava um silêncio surdo no navio, que mais parecia um claustro de trapistas; ninguém falava, mesmo os marinheiros olhavam fixo para diante, por não haver esperanças de passar a linha do Equador”.
Em sinal de agradecimento a Neptuno, pela protecção e acompanhamento, os marinheiros consagravam-lhe a viagem e faziam oblações envoltas em rituais. Nascia do baptismo da passagem da linha do Equador.
Aterro em Jakarta já de noite. A penumbra deixa apenas passar a imagem esbatida das silhuetas daqueles que se atravessavam no meu caminho. Não vejo o semblante que transportam, mas perscruto bem lá no intimo os seus mais fortes desejos…
Diz a história que em honra da vitória infligida pelo sultão da antiga indonésia aos portugueses, em 1527, esta cidade recebeu o nome de Jakarta, que no idioma local significa a “fortaleza gloriosa”.
Na busca de alternativa a Malaca e procurando fornecedores de pimenta, que posteriormente era vendida à China com ganhos de 10x, os portugueses foram os primeiros a chegar ao território, que agora é Jakarta, na ilha de Java, em 1513.
Os portugueses estabeleceram-se na cidade, aliaram-se aos locais e construíram um porto, que servia de entreposto para as trocas comerciais. Ainda hoje é possível identificar vestígios da presença portuguesa em Batávia (nome dado pelos Holandeses a Jacarta).
Todavia, a maior herança dos portugueses no arquipélago da Indonésia é sem dúvida a língua. Por exemplo: Sapato, diz-se Sepatu; Manteiga, mentega; camisa, kemija, etc. Existem actualmente cerca de 200 palavras no Bahasa Indonesia de origem portuguesa. O crioulo português de origem malaia, funcionou como língua franca em Batávia, desde o século XVII ao início do século XIX. Apesar de Batávia estar dominada pelos Holandeses, estes não permitiam que os locais (a classe baixa) falasse o Neerlandês, este era reservado apenas aos colonizadores.
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O porto é um mar de lixo a céu aberto! Uma espécie de encarregado do turismo local aborda-me, é adepto do Manchester. Tento explicar que não vou muito à bola com o futebol, mas quando o faço, torço pelo FCP. Caldo entornado, o FCP era o mais recente rival do Manchester, no problem. Tenta, em vão, convencer-me a passar para o outro lado do rio, o sol queimava-me a pele ou o que restava dela… não resisti, voltei atrás. Isto acontece, quando não se é suficientemente branco para viver nas terras do norte, nem escuro o qb para enfrentar os “sóis” tropicais.
O porto antigo de Sunda Kelapa é hoje um agitado centro do comércio em Jacarta, alberga a última frota de barcos a vela usados estritamente para o comércio. Estão atracados a terra como estiveram durante Séculos.
3 comments 2009/04/18
Damnoen Saduak (Floating Market – Thailand)
Se há imagens da Tailandia que correm mundo e que qualquer um de nós as reconhecia, essas são as do mercado flutuante de Damnoen Saduak.
Este é daqueles sítios turísticos, mas inesqueciveis…
Os quase 40 graus que se faziam sentir, tornava insuportavel a centena de km que separa Bangkok deste emaranhado de canais, de cheiros, cores, pessoas, hábitos e culturas. O taxi do A’tee, o amigo taxista que acompanhou esta aventura, sulcava o asfalto, parando de quando em vez para se abastecer, umas vezes de combustivel, outras de águas.
Arrastado pela paisagem e pelo calor, vagueio por entre coqueiros, bananeiras, mosquitos e elefantes e desemboco num estalar de sensações virgens… com cheiros de arroz fumegante e temperos cujos aromas desconheço.
Informações práticas:
- Do centro de Bangkok até ao mercado ão cerca de 2 horas de viagem. Embora haja autocarros, se tiver possibilidade de juntar um pequeno grupo, negoceie um preço com o taxista, já que existe outras “atracções” nos arredores do mercado flutuante.
- Não alugue o barco à entrada do mercado, vá a pé até ao centro e se assim o entender alugue-o aqui e deleite-se um pouco pelos canais.
- O calor é, por vezes, insuportável. Verifique se leva líquidos suficientes.
Consulte aqui a localização:
Ver mapa maior
3 comments 2009/04/16













































































































